Conforme a sociedade evolui, os estudos sobre os comportamentos humanos também são intensificados a fim de entender como funciona a mente das pessoas. Por conta disso, a neurociência vem ganhando destaque em diversas áreas, inclusive na educação. Hoje, é possível dizer que a neurociência ajuda os educadores a conduzir o processo de ensino-aprendizagem, levando os alunos a internalizarem diversos conteúdos acadêmicos de forma mais rápida e eficaz.

 

Apesar do termo neurociência ainda parecer complexo para muitas pessoas, ele vem conquistando um espaço significativo na educação do século XXI, trazendo para a sala de aula técnicas importantes que ajudam na formação integral dos alunos. Na sequência, vamos mostrar como a neurociência trabalha a favor da aprendizagem e como as instituições de ensino estão utilizando essas técnicas para promover uma educação de ponta. Confira!

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O que é neurociência?

 

Antes de mostramos como a neurociência pode atuar em parceria com a educação, é importante entendermos um pouco melhor esse conceito. A neurociência é uma área de estudo relacionada à medicina que trabalha na interface de várias outras áreas de estudo, como psicologia, pedagogia, biologia, anatomia, genética, fonoaudiologia, tecnologia, física, filosofia, entre outras.

 

O principal propósito da neurociência é ajudar a esclarecer o que acontece no cérebro humano, desde a sua formação até o envelhecimento. Assim, com base nessas importantes informações sobre a mente humana é possível utilizar técnicas específicas que ajudam a aprimorar a educação, como mostraremos a seguir.

Educação e neurociência: uma parceria de sucesso

 

Com o propósito de compreender a mente humana, a neurociência vem auxiliando cada vez mais os educadores a identificarem como o cérebro se comporta quando entra em contato com novas informações. Esse processo é comum no dia a dia escolar, porém eram poucas as informações sobre a reação da mente durante o aprendizado de novos conteúdos.

 

Hoje, com a neurociência, os professores sabem como o cérebro processa essas novidades e de que forma o aprendizado se torna conhecimento para a vida toda. Esse último ponto, inclusive, sempre foi uma preocupação dos profissionais que atuam na área da educação. Fazer com que os alunos internalizem os conteúdos apresentados em sala de aula, aplicando esse conhecimento em seu dia a dia, é um grande desafio, pois durante a trajetória escolar a quantidade de temas desenvolvidos é muito ampla.

 

Com a neurociência, foi possível entender com mais clareza como funciona esse processo. De acordo com o neurocientista ganhador do Prêmio Nobel em 2006, Kandel, “aprender significa criar memórias de longa duração”. Sendo assim, segundo a neurociência, a aprendizagem acontece quando o estudante consegue resgatar uma memória e aplicá-la de forma inovadora e criativa na resolução de problemas. Ainda neste processo, o aluno alinha os estudos à vivência, à imaginação e à necessidade de fazer diferença na sociedade e no mundo.

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Aprender modifica o cérebro

 

Com base nas pesquisas realizadas pelos especialistas em neurociência, há provas de que a aprendizagem modifica a estrutura física do cérebro, tornando-o mais funcional. A experiência de aprender afeta o cérebro que, por sua vez, acaba se beneficiando de forma positiva. Assim, o que o aluno aprende na escola tem um efeito a nível celular, levando a novos padrões de organização do cérebro.

 

Alunos cientistas

 

Outro ponto levantado pela neurociência está relacionado à capacidade que as crianças têm de compreender os princípios básicos da biologia e da causalidade física, dos números, das narrativas e dos objetivos pessoais. Diante disso, a apresentação desses conceitos deve fazer parte da Educação Infantil, com um currículo inovador para que os pequenos ampliem as chances de se tornarem no futuro pesquisadores ou cientistas.

 

O aprendizado é para todos

 

A neurociência permite que os profissionais da educação compreendam com mais clareza o funcionamento do cérebro e suas ações. Uma das descobertas é que a capacidade de criar conexões entre os neurônios está presente em toda a vida. Assim, todos os alunos são capazes de aprender algo novo todo dia. Essa constatação coloca o professor no papel de impulsionador deste aprendizado, dando autonomia ao estudante, incentivando o aprendizado e mostrando ao aluno suas capacidades, o que fortalecerá a sua autoestima.

 

Vimos que é fundamental os educadores do século XXI conhecerem os pontos apresentados pela neurociência sobre o funcionamento do cérebro, pois a partir daí é possível aprimorar as suas práticas e lidar melhor com potencialidades e dificuldades dos alunos, promovendo uma educação de excelência.

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Como a neurociência interfere na aprendizagem

 

A emoção interfere no processo de retenção de informação. É preciso motivação para aprender. A atenção é fundamental na aprendizagem. O cérebro se modifica em contato com o meio durante toda a vida. A formação da memória é mais efetiva quando a nova informação é associada a um conhecimento prévio. Para você, essas afirmações podem não ser inovadoras, seja por causa da sua experiência em sala, seja por ter estudado Jean Piaget (1896-1980), Lev Vygotsky (1896- 1934), Henri Wallon (1879-1962) e David Ausubel (1918-2008), a maioria da área da Psicologia cognitiva. A novidade é que as conclusões são fruto de investigações neurológicas recentes sobre o funcionamento cerebral.

"O que hoje a Neurociência defende sobre o processo de aprendizagem se assemelha ao que os teóricos mostravam por diferentes caminhos", diz a psicóloga Tania Beatriz Iwaszko Marques, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estudiosa de Piaget. O avanço das metodologias de pesquisa e da tecnologia permitiu que novos estudos se tornassem possíveis. "Até o século passado, apenas se intuía como o cérebro funcionava. Ganhamos precisão", diz Lino de Macedo, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), também piagetiano. Mas é preciso refletir antes de levar as ideias neurocientíficas para a sala.

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A Neurociência e a Psicologia Cognitiva se ocupam de entender a aprendizagem, mas têm diferentes focos. A primeira faz isso por meio de experimentos comportamentais e do uso de aparelhos como os de ressonância magnética e de tomografia, que permitem observar as alterações no cérebro durante o seu funcionamento. "A Psicologia, sem desconsiderar o papel do cérebro, foca os significados, se pautando em evidências indiretas para explicar como os indivíduos percebem, interpretam e utilizam o conhecimento adquirido", explica Evelyse dos Santos Lemos, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e especialista em aprendizagem significativa, campo de estudo de Ausubel.

As duas áreas permitem entender de forma abrangente o desenvolvimento da criança. "Ela é um ser em que esses fatores são indissociáveis. Por isso, não pode ser vista por um único viés", diz Claudia Lopes da Silva, psicóloga escolar da Secretaria de Educação de São Bernardo do Campo e estudiosa de Vygotsky.

Sabemos, por exemplo, com base em evidências neurocientíficas, que há uma correlação entre um ambiente rico e o aumento das sinapses (conexões entre as células cerebrais). Mas quem define o que é um meio estimulante para cada tipo de aprendizado? Quais devem ser as intervenções para intensificar o efeito do meio? Como o aluno irá reagir? "A Neurociência não fornece estratégias de ensino. Isso é trabalho da Pedagogia, por meio das didáticas", diz Hamilton Haddad, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da USP. Como, então, o professor pode enriquecer o processo de ensino e aprendizagem usando as contribuições da Neurociência?

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Para o educador português António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, responder à questão é o grande desafio do século 21. "A estrutura educacional de hoje foi criada no fim do século 19. É preciso fazer um esforço para trazer ao campo pedagógico as inovações e conclusões mais importantes dos últimos 20 anos na área da ciência e da sociedade", diz.

Ao professor, cabe se alimentar das informações que surgem, buscando fontes seguras, e não acreditar em fórmulas para a sala de aula criadas sem embasamento científico. "A Neurociência mostra que o desenvolvimento do cérebro decorre da integração entre o corpo e o meio social. O educador precisa potencializar essa interação por parte das crianças", afirma Laurinda Ramalho de Almeida, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e especialista em Wallon.

Para tornar mais claro o diálogo entre Neurociência, Psicologia e Pedagogia, nosso CEPMG mostra cinco conclusões neurocientíficas ligadas à aprendizagem. Confira, nos comentários dos especialistas, o que grandes teóricos dizem a respeito desses temas e reflita sobre a relação deles com sua prática em sala.

Emoção

Ela interfere no processo de retenção da informação. Os pesquisadores Larry Cahill e James McGaugh, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, publicaram nos anos 1990 os resultados de estudos em que foram mostradas duas séries de imagens a pessoas. Uma tinha um caráter emocional e a outra era neutra. O grupo teve uma recordação maior das emotivas. Por meio de um tomógrafo, foi observada a relação entre a ativação da amígdala (parte importante do sistema emotivo do cérebro) e o processo de formação da memória. "Quanto mais emoção contenha determinado evento, mais ele será gravado no cérebro", diz Iván Izquierdo, médico, neurologista e coordenador do Centro de Memória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

 

A emoção, para Piaget

"O psicólogo valoriza o termo afetividade, em vez de emoção, e diz que ela influencia positiva ou negativamente os processos de aprendizagem, acelerando ou atrasando o desenvolvimento intelectual." - Lino de Macedo

A emoção, para Vygotsky

 

"Para compreender o funcionamento cognitivo (razão ou inteligência), é preciso entender o aspecto emocional. Os dois processos são uma unidade: o afeto interfere na cognição, e vice-versa. A própria motivação para aprender está associada a uma base afetiva." - Claudia Lopes da Silva

A emoção, para Wallon

"O pesquisador defende que a pessoa é resultado da integração entre afetividade, cognição e movimento. O que é conquistado em um desses conjuntos interfere nos demais. O afetivo, por meio de emoções, sentimentos e paixões, sinaliza como o mundo interno e externo nos afeta. Para Wallon, que estudou a afetividade geneticamente, os acontecimentos à nossa volta estimulam tanto os movimentos do corpo quanto a atividade mental, interferindo no desenvolvimento." - Laurinda Ramalho de Almeida

Implicações na Educação

O professor, ao observar as emoções dos estudantes, pode ter pistas de como o meio escolar os afeta: se está instigando emocionalmente ou causando apatia por ser desestimulante. Dessa forma, consegue reverter um quadro negativo, que não favorece a aprendizagem. "Da mesma forma que sem fome não apreendemos a comer e sem sede não aprendemos a beber água, sem motivação não conseguimos aprender", afirma Iván Izquierdo. Estudos comprovam que no cérebro existe um sistema dedicado à motivação e à recompensa. Quando o sujeito é afetado positivamente por algo, a região responsável pelos centros de prazer produz uma substância chamada dopamina. A ativação desses centros gera bem-estar, que mobiliza a atenção da pessoa e reforça o comportamento dela em relação ao objeto que a afetou.

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Como é o processo de aprendizagem no cérebro

 

Que o cérebro é o principal órgão do nosso corpo, todos sabemos, certo? Ele é o responsável por controlar todos os nossos movimentos inconscientes e conscientes; além de comandar todos os processos dos comportamentos cognitivos. Tudo o que fazemos, pensamos e sentimos é fruto de um processamento cerebral. Esse processamento é feito através dos neurônios e todas as sinapses realizadas por eles. A neurocientista Suzana Herculano – Houzel, em seu estudo de 2009, diz que o modelo do cérebro humano inclui 86 bilhões de neurônios e cerca de um quatrilhão de sinapses, que permitem nossas conexões neurais.

A partir do momento que entramos em contato com algum estímulo externo, o cérebro passa a trabalhar de forma intensa para dar uma resposta; intensa, mas rápida. A informação viaja pelos nossos neurônios a uma velocidade de 360km/h. A resposta varia para cada pessoa, de acordo com a experiência cerebral de cada um. E as nossas sensações tem uma responsabilidade primordial para o processamento de aprendizagem.

Processamento Sensorial

O corpo humano em sua totalidade é composto por diversas entradas sensoriais,  além dos cinco sentidos que são  olfato, audição, tato, paladar e visão. Temos pelo menos mais 22 entradas sensoriais, responsáveis por estímulos externos e internos. O processamento sensorial passa por uma série de etapas. Vamos conhecer?

Sensação: captação dos estímulos do meio externo, recebido por algum dos nossos canais externos. 

Percepção: as informações são segmentadas pelos canais sensoriais e organizadas de forma integrada.

Atenção: os estímulos podem ser escolhidos ou esquecidos, de acordo com os nossos níveis de atenção ou desatenção.

Memória: o estímulo pode ser fixado, retido, esquecido ou então, ser passível de evocação.

Linguagem: a partir disso, a representação do pensamento, dos sentimentos e da organização cerebral é convertida em atos motores ou ações.

"Quanto mais emoção tem uma situação, melhor ela será gravada e aprendida, criando significados positivos”, diz Solange Jacob, Diretora Pedagógica Nacional do Método SUPERA.

E como toda ação e recepção tem a sua aprendizagem, existem algumas entradas sensoriais que são primordiais nesse processo. Dentre elas, temos a coceira, a temperatura, dor, noção vestibular (equilíbrio) e a própria acepção corporal (corpo no espaço – receptores musculares). Um ambiente com uma temperatura inadequada, sensações de dor, coceira, o nosso corpo no ambiente e o equilíbrio são sensações que influenciam diretamente no processo de assimilação de informações e aprendizagem.

E a capacidade de aprendizagem diminui ao longo do tempo? Segundo Solange Jacob, nós aprendemos por toda a vida: “ Não há idade, o processo de aprendizagem acontece quando há uma modificação  da estrutura cerebral, que cria memórias de longo prazo; essas memórias são adquiridas através da atenção”.

Assim, a importância da prática da ginástica cerebral se torna mais evidente. Modificando o cérebro e sua estrutura de cognição, ele se torna mais funcional e, consequentemente, a aprendizagem se torna mais rápida e eficiente.